Biópsia de próstata transperineal ou transretal: qual é mais segura?
- Dr. Bruno Benigno

- 24 de jul.
- 4 min de leitura
Se o seu PSA veio alterado e o médico indicou uma biópsia de próstata, você provavelmente ouviu falar de duas vias: a transretal e a transperineal. A diferença entre elas não é um detalhe técnico — ela muda o risco de infecção e o conforto do exame. A boa notícia: a via transperineal, feita pela pele do períneo, praticamente elimina as infecções graves e detecta o câncer que importa igual ou melhor que a via tradicional.
Neste artigo explicamos, de forma simples, o que muda entre as duas técnicas, o que dizem os estudos mais recentes e como isso se aplicou a um caso real atendido no consultório.
O que muda entre a biópsia transperineal e a transretal?
Na biópsia transretal, a agulha é introduzida através da parede do reto para alcançar a próstata. Na biópsia transperineal, a agulha entra pela pele do períneo — a região entre a bolsa escrotal e o ânus — sem atravessar o intestino. Como o reto é cheio de bactérias, evitar essa passagem é o que reduz o risco de infecção.

Por que a biópsia transperineal tem menos infecção?
Porque a agulha não passa pelas fezes. No estudo PREVENT, um ensaio clínico randomizado, não houve nenhuma infecção no grupo da biópsia transperineal — mesmo sem antibiótico preventivo [1]. Uma meta-análise que reuniu dez estudos e mais de quatro mil biópsias mostrou que a via transperineal reduz em cerca de 77% o risco de internação por infecção [4].
A via da biópsia é hoje um dos fatores que mais influenciam o risco de infecção — e a transperineal é a mais segura nesse ponto.
A biópsia transperineal detecta o câncer da mesma forma?
Sim — e, em algumas situações, até melhor. No estudo TRANSLATE, a via transperineal encontrou mais casos de câncer clinicamente significativo (60 em cada 100, contra 54 na transretal) [2]. Revisões que reuniram vários estudos confirmam que a detecção é equivalente, com vantagem para alcançar a parte anterior e o ápice da próstata — regiões mais difíceis pela via transretal [3][6].

Preciso tomar antibiótico? E como é a anestesia?
Como a agulha não passa pelo reto, a biópsia transperineal costuma dispensar o antibiótico preventivo — o que reduz efeitos colaterais e ajuda a combater a resistência bacteriana [4][5]. Hoje o exame é feito com anestesia local ou sedação leve, em ambiente ambulatorial, com alta no mesmo dia. O desconforto é discretamente maior no momento da coleta, mas costuma passar em poucos dias [1][2].
PSA alterado significa câncer? Quando a biópsia é indicada?
Não. Um PSA alterado é um sinal de alerta, não um diagnóstico. A decisão de fazer a biópsia nasce do conjunto de informações: o valor do PSA, a relação PSA livre/total, o toque retal e a ressonância magnética.
Foi o que aconteceu com um paciente de 59 anos atendido no consultório (caso real, com dados alterados para preservar a identidade). Ele não tinha sintomas urinários, mas o PSA estava em 3,89 ng/mL com relação livre/total de 11% (um valor baixo, que aumenta a suspeita). No toque havia um nódulo, e a ressonância mostrou uma lesão classificada como PI-RADS 3 — um resultado indeterminado. Sozinho, o PI-RADS 3 não fecha diagnóstico; somado ao PSA livre baixo e ao nódulo, ele justifica a biópsia.

Como se preparar para a biópsia?
Controle da glicemia: em quem tem diabetes, manter o açúcar no sangue controlado antes do exame reduz o risco de infecção.
Exames prévios: exame de urina (e urocultura, se indicada) e coagulograma.
Medicações: informe o médico sobre tudo o que usa, especialmente anticoagulantes.
Preparo: siga as orientações de jejum e higiene do serviço onde o exame será feito.
O que dizem as diretrizes médicas?
As principais sociedades de urologia reconhecem a migração para a via transperineal. A diretriz da AUA/SUO orienta focar na detecção do câncer clinicamente significativo e cita a via transperineal como estratégia para reduzir infecções [7]. A EAU (Europa) passou a preferir a via transperineal justamente pela menor taxa de infecção. No Brasil, a técnica está em expansão, e a via transretal segue disponível e válida conforme cada caso e serviço.
Em resumo
A via importa: a transperineal entra pela pele, não pelo reto.
Menos infecção grave: até 77% menos internações; zero infecções no estudo PREVENT.
Detecção igual ou melhor do câncer que importa.
Dispensa antibiótico preventivo na maioria dos casos.
PI-RADS 3 + PSA livre baixo + nódulo = indicação de biópsia.
Quer entender melhor cada etapa do diagnóstico do câncer de próstata? O portal Rota Azul reúne conteúdo gratuito e confiável para pacientes e famílias: www.rotazul.ong.br.
Sobre o autor
O Dr. Bruno Benigno é médico urologista com atuação em uro-oncologia, cirurgia robótica e cirurgia minimamente invasiva (CRM-SP 126265). Este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação médica individual.
Referências
1. Hu JC, Assel M, et al. Transperineal versus transrectal MRI-targeted and systematic prostate biopsy to prevent infectious complications: the PREVENT randomized trial. Eur Urol. 2024;86(1):61-68. [PubMed]
2. Bryant RJ, Marian IR, et al. Local anaesthetic transperineal biopsy versus transrectal prostate biopsy in prostate cancer detection (TRANSLATE): a multicentre, randomised, controlled trial. Lancet Oncol. 2025;26(5):583-595. [PubMed]
3. Zattoni F, Rajwa P, et al. Transperineal versus transrectal MRI-targeted prostate biopsy: a systematic review and meta-analysis of prospective studies. Eur Urol Oncol. 2024;7(6):1303-1312. [PubMed]
4. Stangl FP, Day E, et al. Infectious complications after transrectal versus transperineal prostate biopsy: a systematic review and meta-analysis. Eur Urol Focus. 2025. [PubMed]
5. Madhavan K, Bhargava P, et al. Preventing infectious complications following prostate biopsy: a systematic review and network meta-analysis. Eur Urol Focus. 2025;11(2):301-311. [PubMed]
6. Diamand R, Guenzel K, et al. Transperineal or transrectal MRI-targeted biopsy for prostate cancer detection. Eur Urol Focus. 2024;10(5):805-811. [PubMed]
7. Wei JT, Barocas D, et al. Early detection of prostate cancer: AUA/SUO guideline part II. J Urol. 2023;210(1):54-63. [PubMed]
Aviso: este artigo tem finalidade educativa e informativa. Ele não substitui a consulta, o diagnóstico ou o tratamento com um médico. Procure sempre um profissional de confiança.




Comentários