Câncer de Próstata Mata? Chances por Fase e Abiraterona no SUS

Resposta rápida: O câncer de próstata pode matar, mas isso não é a regra: o risco depende principalmente da fase em que a doença é descoberta. Quando o tumor está só na próstata, cerca de 99% dos homens estão vivos após 5 anos; quando já há metástase, esse número cai para perto de 38%. Mesmo com metástase, tratamentos como a abiraterona, que agora chega ao SUS, controlam a doença por mais tempo e aumentam a sobrevida, embora não curem. Descobrir cedo, com PSA a partir dos 45 anos, continua sendo a melhor proteção.
Um homem de 68 anos, caminhoneiro aposentado, avô de cinco netos, escreveu ao nosso canal depois de saber da morte do cantor Benito di Paula, que, segundo a imprensa, tratava um câncer de próstata avançado. Ele tem a mesma doença, com metástases nos ossos, e acabara de ouvir do médico que receberia a abiraterona pelo SUS. A pergunta dele era direta: câncer de próstata mata? E esse remédio vai me ajudar?
Neste artigo, o Dr. Bruno Benigno, urologista e uro-oncologista em São Paulo (CRM-SP 126265 | RQE 60022), responde se o câncer de próstata mata, mostra as chances em cada fase da doença e explica, de forma prática, como a abiraterona funciona e como pedir o remédio no SUS.
Atualizado em 22 de outubro de 2026 · Revisão médica: Dr. Bruno Benigno, urologista (CRM-SP 126265)
Pontos-chave deste artigo
O câncer de próstata pode matar, mas a maioria dos homens diagnosticados não morre da doença.
A fase em que o câncer é descoberto é o fator que mais muda as chances de cura.
Com doença localizada e tratada, só cerca de 3 em cada 100 homens morrem do câncer em 15 anos.
A abiraterona é um comprimido que soma ao bloqueio hormonal e aumenta a sobrevida no câncer metastático, mas não cura.
No SUS, o pedido começa pela equipe que já trata o paciente; o Disque Saúde 136 informa o centro mais próximo.
O rastreamento com PSA deve ser conversado a partir dos 45 anos, ou dos 40 em homens negros ou com pai ou irmão com a doença.
Qual é o caso do paciente de 68 anos?
O paciente começou com uma dor nas costas que não passava. Os exames mostraram um câncer de próstata de alta agressividade, já espalhado para os ossos da coluna e da bacia, o que explicava a dor.
Dado | Achado |
Idade | 68 anos |
Sintoma inicial | Dor nas costas persistente |
PSA | 86 ng/mL (referência usual: até 4) |
Biópsia | Gleason 9 (alta agressividade; escala vai até 10) |
Cintilografia óssea | 3 metástases (coluna e bacia) |
Tratamento em uso | Bloqueio hormonal com gosserrelina (Zoladex) a cada 3 meses |
Próximo passo | Associar abiraterona com prednisona, pelo SUS |
Quando há metástase, a cirurgia de retirada da próstata deixa de ser o tratamento principal. Na prática: é como uma colmeia que já espalhou abelhas; retirar a colmeia não resolve, porque as abelhas de fora refazem a colmeia em outro lugar. Por isso o tratamento passa a ser feito no corpo todo, com remédios.
Câncer de próstata mata?
Sim, o câncer de próstata pode matar, principalmente quando é descoberto já com metástase, mas a maioria dos homens diagnosticados não morre da doença. Segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA) citados no vídeo, o Brasil registra cerca de 71 mil casos novos e cerca de 17 mil mortes por câncer de próstata por ano. É o segundo câncer que mais mata homens no país, e cerca de 1 em cada 7 homens terá a doença ao longo da vida.
Também existe uma diferença importante entre morrer com câncer de próstata e morrer do câncer de próstata. Uma revisão de 29 estudos de autópsia publicada no International Journal of Cancer mostrou que cerca de 59% dos homens acima de 79 anos tinham câncer de próstata, e a maioria morreu de outras causas sem nunca saber da doença [3]. Na prática: em homens mais velhos, um câncer pouco agressivo muitas vezes nem precisa de tratamento; já um câncer agressivo precisa de ação em qualquer idade.
O tumor é considerado agressivo quando tem Gleason 8, 9 ou 10, ou Gleason 7 com PSA acima de 20 ou com câncer em quase todos os fragmentos da biópsia, ou quando já é descoberto com metástase.
Quais as chances de cura em cada fase da doença?
A chance de sobreviver depende diretamente da fase em que o câncer é descoberto. Pelos dados de sobrevida usados no vídeo, a diferença entre a doença localizada e a metastática é enorme:
Fase no diagnóstico | Vivos após 5 anos (aprox.) |
Só na próstata (localizada) | 99% |
Fora da próstata ou em gânglios próximos | Também muito alta |
Com metástase à distância | 38% |
No estudo britânico ProtecT, publicado no The New England Journal of Medicine em 2023, 1.643 homens com câncer de próstata localizado, descoberto pelo PSA, foram acompanhados por 15 anos. Só 2,7% morreram do câncer, enquanto 21,7% morreram de outras causas [1]. Na prática: quando o câncer é descoberto no início, cerca de 3 em cada 100 homens morrem da doença em 15 anos.
Fazer o PSA reduz o risco de morrer de câncer de próstata?
Sim. O rastreamento com PSA reduz as mortes por câncer de próstata. O estudo europeu ERSPC, com 162.236 homens acompanhados por 23 anos e publicado no The New England Journal of Medicine em 2025, mostrou 13% menos mortes por câncer de próstata no grupo rastreado; para cada 12 homens diagnosticados, uma morte foi evitada [2]. Na prática: o PSA salva vidas, mas o diagnóstico precisa ser interpretado por um especialista, porque nem todo câncer descoberto precisa ser tratado.
Quando começar a conversar sobre o PSA com o urologista:
A partir dos 45 anos, para todos os homens (recomendação da Sociedade Brasileira de Urologia).
A partir dos 40 anos, para homens negros ou com pai ou irmão com câncer de próstata.
A partir dos 40 anos, para quem tem mutação no gene BRCA2.
Na Europa, a referência é 50 anos para a população geral e 45 anos para grupos de risco.
O que é a abiraterona e como ela funciona?
A abiraterona é um comprimido de hormonioterapia que bloqueia a testosterona produzida fora dos testículos. A testosterona não causa o câncer de próstata, mas funciona como combustível para ele crescer. Ela é produzida em três lugares:
Testículos: cerca de 95% da testosterona do homem. São bloqueados pela injeção de bloqueio hormonal (como a gosserrelina).
Glândulas suprarrenais, que ficam sobre os rins: bloqueadas pela abiraterona.
O próprio tumor, que também produz um pouco de testosterona: bloqueado pela abiraterona.
Na prática: a injeção fecha a torneira dos testículos e a abiraterona fecha as outras duas. Juntas, deixam o tumor sem combustível. Por isso a abiraterona nunca substitui a injeção; ela é somada a ela. Para mais detalhes sobre a chegada do remédio à rede pública, leia Abiraterona no SUS: o que muda no câncer de próstata em 2026.
Para quem a abiraterona é indicada e quanto tempo de vida ela acrescenta?
A abiraterona é indicada para homens com câncer de próstata metastático: tanto para quem acabou de descobrir a metástase quanto para quem já fez outros tratamentos e voltou a progredir. Se o câncer está só na próstata, o tratamento é outro, como cirurgia ou radioterapia.
No estudo LATITUDE, publicado no The New England Journal of Medicine e com análise final no The Lancet Oncology, homens com câncer metastático de alto risco recém-diagnosticado que receberam abiraterona junto com o bloqueio hormonal tiveram sobrevida mediana de 53,3 meses, contra 36,5 meses sem o remédio [4][5]. O estudo britânico STAMPEDE confirmou uma redução de cerca de 37% no risco de morte [6]. Na prática: em média, a sobrevida passou de cerca de 3 anos para quase 5 anos. É uma média: há pacientes que vivem muito mais e outros que respondem menos.
Em doença de grande volume, o médico pode associar a abiraterona também à quimioterapia. No estudo PEACE-1, publicado no The Lancet, a combinação de bloqueio hormonal, quimioterapia com docetaxel e abiraterona aumentou a sobrevida em relação ao bloqueio com quimioterapia [7]. Na prática: nem todo paciente precisa de quimioterapia; essa decisão é individual.
Para quem já passou por quimioterapia, o ganho médio é mais modesto, de cerca de 4 meses. Para quem tem uma expectativa de vida curta, esses meses fazem diferença, especialmente com qualidade de vida.
Quiz: teste o que você aprendeu
Leia cada afirmação, pense se é verdade ou mito e toque nela para ver a resposta.
1. O câncer de próstata sempre dá sintoma. Verdade ou mito?
MITO. No início, o câncer de próstata não causa sintomas. Quando aparecem, como dor nos ossos, a doença costuma estar avançada. Por isso o PSA é importante.
2. Se um famoso morreu de câncer de próstata, o tratamento não funciona para ninguém. Verdade ou mito?
MITO. Cada caso é único. A fase do diagnóstico e a agressividade do tumor mudam tudo, e os tratamentos evoluem a cada ano.
3. Homens negros têm mais risco de câncer de próstata. Verdade ou mito?
VERDADE. Homens negros, e também quem tem pai ou irmão com a doença, têm mais risco e devem começar o rastreamento aos 40 anos.
4. A abiraterona substitui a injeção de bloqueio hormonal. Verdade ou mito?
MITO. A abiraterona bloqueia a testosterona das suprarrenais e do tumor. A dos testículos continua sendo bloqueada pela injeção. Os dois são usados juntos.
5. A abiraterona deve ser tomada junto com prednisona. Verdade ou mito?
VERDADE. A prednisona repõe o cortisol que a abiraterona também reduz. Ela nunca deve ser interrompida de repente.
Ficou com alguma dúvida sobre o seu caso? Fale com a equipe da Clínica Uro Onco pelo WhatsApp.
Como tomar a abiraterona e quais os efeitos colaterais?
A abiraterona deve ser tomada em jejum, uma vez ao dia, sempre com prednisona e sem interromper a injeção de bloqueio hormonal. Com comida, o remédio é absorvido em excesso, o que aumenta os efeitos colaterais. A orientação prática do Dr. Bruno aos pacientes:
Dose usual: 1.000 mg (4 comprimidos de 250 mg ou 2 de 500 mg), todos de uma vez.
Tomar cerca de 2 horas depois de uma refeição (ex.: almoço ao meio-dia, remédio às 14h).
Ficar 1 hora sem comer depois de tomar.
Tomar junto a prednisona: ela repõe o cortisol que a abiraterona também reduz; não é um corticoide extra.
Manter a injeção de bloqueio hormonal.
Fazer exames a cada 3 meses: pressão, potássio, fígado e glicemia.
Os efeitos mais frequentes são pressão alta (cerca de 21% dos pacientes), queda do potássio e, mais raramente, alteração do fígado (cerca de 6%). Se necessário, o médico ajusta a dose.
Sinais de alerta para avisar o médico: inchaço nas pernas, cansaço intenso, falta de ar, câimbras, fraqueza, coração acelerado, olhos amarelados, urina muito escura, dor de cabeça forte ou pressão muito alta. Nunca pare a prednisona de repente: ela precisa ser retirada aos poucos, com orientação médica.
Como pedir a abiraterona pelo SUS?
O pedido começa pela equipe que já trata o seu câncer de próstata no SUS. A incorporação foi decidida em agosto de 2024, e a entrega mais ampla começou em outubro de 2026, inicialmente em 20 centros em 17 unidades da federação, com expansão prevista para todo o país.
Converse com o oncologista ou urologista que acompanha você: ele confere se o seu caso preenche os critérios.
Leve PSA, testosterona, biópsia e exames de imagem (cintilografia, tomografia ou PET-PSMA).
Para saber o centro de retirada mais próximo, ligue para o Disque Saúde 136, do Ministério da Saúde.
Não interrompa nem inicie nenhum tratamento por conta própria.
Veja também: Benito di Paula e câncer de próstata: o que todo homem deve saber e Câncer de próstata metastático: avanços no tratamento em 2026.
Como terminou a história do paciente?
Três meses depois de começar a abiraterona, o PSA do paciente caiu de 86 para 0,4, a dor nas costas desapareceu e ele voltou a pescar com o filho e o neto. A doença não foi curada, mas ele ganhou tempo e qualidade de vida.
Nem todos respondem da mesma forma: em alguns homens o PSA cai pouco. Por isso o acompanhamento a cada 3 meses é parte do tratamento.
Quais perguntas levar à próxima consulta?
Em que fase o meu câncer foi descoberto?
Ele é agressivo? Qual é o Gleason?
Tenho metástases? Tenho direito à abiraterona no meu caso?
Quais exames vou fazer e a cada quanto tempo?
Quais sintomas devo vigiar e quando devo procurar a equipe?
Meus filhos e irmãos devem fazer o PSA? A partir de quando?
Quando procurar um urologista?
Você tem 45 anos ou mais e nunca conversou sobre o PSA (40 anos se for negro ou tiver pai ou irmão com a doença).
Seu PSA está alterado ou subindo.
Dor nos ossos ou nas costas persistente em homem com histórico de câncer de próstata.
Diagnóstico recente de câncer de próstata com metástase.
PSA voltando a subir mesmo com o bloqueio hormonal.
Dúvida se o seu caso se encaixa na abiraterona pelo SUS ou desejo de uma segunda opinião.
Reconheceu algum desses sinais? Fale com a equipe da Clínica Uro Onco. O atendimento é presencial em São Paulo ou por teleconsulta, para pacientes de todo o Brasil.
Perguntas frequentes
Câncer de próstata mata?
Pode matar, principalmente quando é descoberto já com metástase. Mas a maioria dos homens diagnosticados não morre da doença: quando o câncer é descoberto no início e tratado, cerca de 3 em cada 100 homens morrem dele em 15 anos, segundo o estudo ProtecT.
Câncer de próstata nos ossos tem cura?
Na maioria dos casos, o câncer de próstata com metástase nos ossos não tem cura, mas tem controle. Tratamentos como o bloqueio hormonal associado à abiraterona aumentam a sobrevida e podem aliviar a dor por muito tempo.
A abiraterona cura o câncer de próstata?
Não. A abiraterona controla o câncer de próstata metastático por mais tempo e aumenta a sobrevida, mas não é curativa. Ela é usada junto com a injeção de bloqueio hormonal.
Quanto tempo a abiraterona aumenta a vida?
No estudo LATITUDE, em homens com câncer metastático de alto risco recém-diagnosticado, a sobrevida mediana passou de 36,5 para 53,3 meses. É uma média: alguns pacientes vivem muito mais e outros respondem menos.
Como pedir a abiraterona pelo SUS?
Converse com a equipe que já trata o seu câncer no SUS, que confere se o caso preenche os critérios e faz a prescrição. O Disque Saúde 136 informa o centro de retirada mais próximo.
Como tomar a abiraterona?
Uma vez ao dia, em jejum (cerca de 2 horas depois de uma refeição e ficando 1 hora sem comer depois), sempre com prednisona e mantendo a injeção de bloqueio hormonal, com exames a cada 3 meses.
Sobre o autor
Dr. Bruno Benigno é urologista e uro-oncologista, fundador da Clínica Uro Onco, com mais de 1.500 cirurgias robóticas realizadas em hospitais de excelência em São Paulo (Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Sírio-Libanês, Nove de Julho, Beneficência Portuguesa e Hospital Santa Catarina). Atua em câncer de próstata, rim e bexiga e em cirurgias minimamente invasivas. CRM-SP 126265 | RQE 60022.
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