Gleason 4+3: cirurgia ou radioterapia? Por que operar primeiro
- Dr. Bruno Benigno

- 20 de jul.
- 4 min de leitura
Receber um diagnóstico de câncer de próstata assusta — e a primeira grande dúvida costuma ser a mesma: operar ou fazer radioterapia? Quando o resultado da biópsia é Gleason 4+3, essa escolha ganha um detalhe importante. Neste texto, explico de forma simples por que, em muitos casos como esse, a cirurgia costuma ser o primeiro passo — e como a radioterapia continua sendo uma aliada poderosa.
Resposta rápida (30 segundos)
Gleason 4+3 é um câncer de risco intermediário desfavorável — um pouco mais agressivo que o 3+4. Cirurgia e radioterapia curam a maioria dos casos localizados, com resultados parecidos. Quando existe chance real de precisar de um segundo tratamento, operar primeiro tende a ser a estratégia mais segura: deixa a radioterapia de resgate como um caminho eficaz, caso seja necessária.
Gleason 3+4 e 4+3: por que a ordem dos números muda tudo
No sistema de Gleason, o primeiro número é o padrão que mais aparece no tumor, e o segundo é o que aparece a seguir. O “padrão 4” é o mais agressivo. Por isso, um Gleason 4+3 (padrão 4 predominante) se comporta de forma diferente de um 3+4 (padrão 3 predominante), mesmo que os dois somem 7.
Na prática, o 4+3 é classificado como risco intermediário desfavorável, enquanto o 3+4 costuma ser favorável. Isso muda a intensidade do planejamento e a atenção ao acompanhamento — sem significar, de forma alguma, que o caso não tenha excelente chance de cura.

Cirurgia ou radioterapia: qual cura mais?
Para o câncer de próstata localizado, as duas opções oferecem chances de cura altas e semelhantes. O estudo ProtecT, que acompanhou homens por 15 anos, mostrou que a mortalidade pela doença foi baixa e parecida entre cirurgia, radioterapia e monitorização — e que os tratamentos ativos reduziram a progressão e as metástases em relação a apenas observar [1]. Em homens mais velhos, cirurgia e radioterapia também reduzem a mortalidade quando comparadas à observação [5].
A escolha, portanto, não é “qual é melhor no geral”, e sim “qual é melhor para o seu caso” — considerando o perfil do tumor, a idade, as outras condições de saúde e as suas preferências.
Por que, neste caso, operar primeiro faz sentido
Quando os exames indicam chance real de a doença ir além da próstata, existe uma probabilidade concreta de ser preciso um segundo tratamento no futuro. E aí a ordem importa muito.
Operando primeiro, retira-se a próstata e o PSA cai para perto de zero, ficando fácil de vigiar. Se ele voltar a subir, a radioterapia de resgate é uma estratégia consagrada e eficaz [2]. O caminho inverso — operar depois de irradiar — costuma ser bem mais difícil. Diretrizes internacionais orientam justamente como e quando indicar o resgate após a cirurgia [4].
Quando a radioterapia é feita após a cirurgia e há fatores de risco, associar bloqueio hormonal por mais tempo pode melhorar os resultados em casos selecionados [3] — algo que a equipe avalia individualmente.

PET-PSMA negativo não é o mesmo que “tudo limpo”
O PET-PSMA é um exame excelente para mostrar focos maiores da doença e metástases visíveis. Mas ele tem um limite: não enxerga micrometástases, aquelas células muito pequenas abaixo do poder de detecção do exame. Por isso, um PET negativo é uma boa notícia, mas não garante ausência total de doença microscópica — e é um dos motivos de a cirurgia, em casos selecionados, incluir a retirada dos linfonodos para um estadiamento mais preciso.
Trifecta: curar preservando a qualidade de vida
O objetivo do tratamento moderno é a chamada “trifecta”: controlar o câncer, preservar a continência urinária e recuperar a função sexual. A reabilitação começa cedo — fisioterapia do assoalho pélvico, uso de bomba a vácuo e medicação — e ajuda a proteger essas funções [6]. A localização do tumor guia a técnica cirúrgica, e a maioria dos homens recupera o controle urinário ao longo dos primeiros meses.

5 perguntas para levar ao seu médico
Meu tumor é de qual grupo de risco — e o que isso muda no tratamento?
No meu caso, quais as vantagens da cirurgia sobre a radioterapia (e vice-versa)?
Qual a chance de eu precisar de um segundo tratamento depois?
Como ficam o controle da urina e a ereção — e qual é o plano de reabilitação?
Faz sentido resolver outras questões (como hérnias ou achados em exames) no mesmo tempo?
Cada caso é único. Se você quer entender melhor a sua rota no câncer de próstata, conheça o portal educativo Rota Azul — informação confiável, do diagnóstico à recuperação.
Fontes e para saber mais
1. Hamdy FC, Donovan JL, Lane JA, et al. Fifteen-year outcomes after monitoring, surgery, or radiotherapy for prostate cancer. N Engl J Med. 2023;388(17):1547-1558. [PubMed]
2. Parker CC, Petersen PM, Cook AD, et al. Timing of radiotherapy after radical prostatectomy: long-term outcomes in the RADICALS-RT trial. Ann Oncol. 2024;35(7):656-666. [PubMed]
3. Parker CC, Kynaston H, Cook AD, et al. Duration of androgen deprivation therapy with postoperative radiotherapy (RADICALS-HD). Lancet. 2024;403(10442):2416-2425. [PubMed]
4. Morgan TM, Boorjian SA, Buyyounouski MK, et al. Salvage therapy for prostate cancer: AUA/ASTRO/SUO guideline, part I. J Urol. 2024;211(4):509-517. [PubMed]
5. Petrelli F, Dottorini L, De Stefani A, et al. Localized prostate cancer in older patients: radical prostatectomy or radiotherapy versus observation. J Geriatr Oncol. 2024;15(6):101792. [PubMed]
6. Altez-Fernandez C, Vazquez-Martul D, Popescu RI, et al. Robot-assisted radical prostatectomy trifecta learning curve. Medicina (Kaunas). 2024;60(7):1032. [PubMed]
Sobre o autor
Dr. Bruno Benigno — Urologista com foco em uro-oncologia e cirurgia robótica, em São Paulo. CRM-SP 126265.
Revisado por Dr. Bruno Benigno · Revisado em jul/2026 · Próxima revisão: jul/2027.
Aviso: este conteúdo é educativo e não substitui a avaliação médica individual. Procure sempre o seu urologista.




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