Inteligência artificial na medicina entra na era da governança: o que muda no seu atendimento

No dia 14 de setembro de 2026, o portal Futurecom Digital publicou uma reportagem sobre a mudança mais silenciosa — e mais profunda — que a medicina brasileira viveu neste ano: a entrada em vigor da Resolução CFM nº 2.454/2026, que passa a regular o uso de inteligência artificial na prática médica. Fui convidado a participar da matéria como fonte especializada, ao lado de Alexandre Pegoraro, CEO da Kronoos.
Escrevo este artigo por um motivo direto. Se você é meu paciente, ou está considerando marcar uma consulta, essa resolução não é um assunto distante, de tecnologia. Ela fala sobre o cuidado que você recebe, sobre o que fica registrado no seu prontuário e sobre o seu direito de saber — e de recusar.
O que mudou em 26 de agosto de 2026
A Resolução CFM nº 2.454/2026 entrou em vigor em 26 de agosto e tirou a inteligência artificial médica do terreno da experimentação informal. A partir dela, qualquer ferramenta de IA usada em um consultório, clínica ou hospital — de sistemas de apoio à decisão clínica a aplicações administrativas — passa a exigir avaliação de risco, documentação, supervisão humana e monitoramento contínuo.
A norma classifica cada sistema em quatro níveis de risco: baixo, médio, alto ou inaceitável. E não existe período de adaptação: ferramentas que já estavam em uso quando a resolução entrou em vigor também precisam ser inventariadas, classificadas e documentadas.
Na reportagem, resumi o ponto que considero central:
"Governança, em saúde, não é uma camada de compliance instalada depois que o sistema já está rodando. É a condição que permite o sistema rodar."
A tecnologia apoia. A decisão continua sendo humana.
Este é o eixo da resolução e é, também, o compromisso que assumo com cada pessoa que se senta na minha frente. A IA pode organizar informação, estruturar um laudo, resumir orientações e apoiar fluxos clínicos. Ela não decide. A decisão diagnóstica, terapêutica e prognóstica permanece com o médico, que pode aceitar ou rejeitar qualquer sugestão feita por um sistema.
A diferença entre a medicina e outros setores está no peso concreto do erro. Foi assim que coloquei na matéria:
"Uma recomendação equivocada em varejo gera devolução. Um estadiamento equivocado muda conduta terapêutica, muda cirurgia, muda a vida de uma família."
Em uro-oncologia, isso é literal. Um estadiamento de câncer de próstata mal interpretado pode transformar um paciente candidato a tratamento localizado em alguém submetido a uma terapia mais agressiva do que precisaria — ou, no sentido oposto, atrasar um tratamento necessário. Nenhum algoritmo assume essa responsabilidade. Eu assumo.
O que fica registrado no seu prontuário
A resolução determina que o médico registre no prontuário o uso de sistemas de IA como apoio à decisão. Na prática, o registro mínimo precisa conter qual ferramenta e qual versão foi usada, para qual finalidade, a confirmação de que houve revisão humana, o que foi acolhido ou rejeitado da sugestão e a informação prestada ao paciente — incluindo uma eventual recusa.
Isso não é burocracia. É proteção mútua.
"Esse é o principal ativo de defesa da instituição e do profissional. Sem ele, uma discussão sobre acerto técnico se converte em discussão sobre falha de dever documental."
Modelos de IA são atualizados e retreinados pelos fornecedores ao longo do tempo. Sem versionamento e trilha de auditoria, uma instituição simplesmente não consegue demonstrar qual versão da ferramenta apoiou determinado atendimento. Por isso defendo que toda organização mantenha um inventário vivo das ferramentas em uso, com fornecedor, finalidade, dados acessados, nível de risco, responsável nomeado e data da próxima revisão.
"Se ninguém consegue nomear o dono de uma ferramenta, ela não deveria estar em operação."
Você precisa ser informado — e tem o direito de recusar
A transparência com o paciente é um dos eixos da norma. Quando a IA for usada como apoio relevante ao seu cuidado, diagnóstico ou tratamento, isso deve ser comunicado de forma clara e acessível. E a sua recusa, se houver, deve ser respeitada sem qualquer prejuízo ao atendimento.
Na minha prática, isso não se resolve com um parágrafo genérico escondido em um termo de consentimento. O consentimento é enviado por link antes da consulta presencial ou por telemedicina, em linguagem simples, e o fluxo de atendimento registra o aceite ou a recusa. A adesão é alta — e a razão é simples: quando o paciente entende que o médico continua no controle da decisão, a tecnologia deixa de ser uma ameaça e passa a ser o que ela é, uma ferramenta.
O risco invisível: a "shadow AI"
Um dos maiores desafios para clínicas e hospitais será lidar com o que se chama de shadow AI: o uso de ferramentas de inteligência artificial fora dos sistemas homologados pela instituição — contas pessoais, aplicativos abertos, soluções não contratadas usadas para resumir documentos, analisar exames ou organizar dados de pacientes.
Em saúde, o problema é mais grave, porque informação clínica é dado sensível e exige proteção reforçada. Mas a resposta não pode ser simplesmente proibir:
"Proibição sem alternativa homologada produz uso clandestino. A instituição que apenas proíbe não eliminou o risco, apenas perdeu a capacidade de enxergá-lo."
A política interna precisa ser realista e dizer com clareza o que pode ser usado, em quais situações, com quais dados, por quais profissionais, sob qual supervisão e com qual registro — e também o que é proibido, especialmente qualquer uso que envolva decisão diagnóstica ou terapêutica sem validação adequada.
O que isso significa, na prática, para quem é meu paciente
Regulação bem feita não é freio. Existe custo em não adotar tecnologias capazes de reduzir tarefas repetitivas e devolver tempo ao cuidado — e esse custo é pago em minutos de atenção que deixam de existir dentro do consultório.
Atendo cerca de 60 pacientes por semana. Com os fluxos de IA implementados e devidamente governados na Clínica Uro Onco, três coisas mudaram de forma mensurável:
Laudos estruturados e resumos em linguagem simples chegam ao paciente em menos de dez minutos após a consulta, não em dias.
A divisão do tempo de consulta passou de cerca de 70% de interação humana e 30% de computador para 90% de interação humana e 10% de computador.
O ganho estimado é de quinze horas de trabalho por semana — tempo que volta para o atendimento, para a discussão de casos e para o estudo.
Traduzindo: você sai da consulta com um resumo do que conversamos, escrito de forma que a sua família consiga entender, ainda no mesmo dia. E, durante a consulta, você tem um médico olhando para você — não para a tela.
"Nada disso teria sido sustentável sem regra clara sobre o que a IA não faz. A governança não foi o freio dessa implementação. Foi o que tornou o ganho defensável."
Três perguntas que todo paciente pode fazer
A nova resolução deu ao paciente um lugar ativo nessa conversa. Se você quiser exercê-lo, estas são perguntas legítimas e simples de fazer em qualquer consulta:
A inteligência artificial foi usada em alguma parte da minha avaliação? Em qual parte, exatamente?
Esse uso está registrado no meu prontuário?
Quem revisou o resultado antes de ele chegar até mim?
Um serviço que tem governança responde às três sem hesitar.
O que muda para as healthtechs
Os efeitos da resolução vão além do consultório e chegam ao mercado fornecedor. Hospitais e instituições passarão a transferir exigências para os contratos: relatórios de desempenho, auditoria, política de dados, versionamento, segurança da informação e regras sobre uso de dados de pacientes para treinamento de modelos.
"Healthtech que não abre métrica de desempenho e não permite customização vai perder contrato institucional, independentemente da qualidade do modelo."
Promessa de acurácia deixou de ser suficiente. O que passa a ser exigido é demonstração: validação, transparência, rastreabilidade, interoperabilidade e governança de dados.
Leia a matéria completa
A reportagem integral do Futurecom Digital, com a análise completa e as contribuições de Alexandre Pegoraro (Kronoos), está disponível aqui: IA médica entra na era da governança obrigatória — Futurecom Digital.
O texto oficial da norma pode ser consultado no portal do Conselho Federal de Medicina.
Sobre o autor
Dr. Bruno Benigno é urologista com atuação em uro-oncologia, cirurgia robótica, cirurgia minimamente invasiva e terapia focal. Membro da American Urological Association (AUA) desde 2013, com fellowship no A.C. Camargo Cancer Center, realiza mais de 220 cirurgias por ano e atende na Clínica Uro Onco, em São Paulo, com afiliação ao Hospital Alemão Oswaldo Cruz. CRM-SP 126265 | RQE 60022.
Na Clínica Uro Onco, a tecnologia entra onde ela agrega — no tempo de resposta, na clareza da informação e na organização do cuidado. A decisão sobre o seu tratamento continua sendo tomada por um médico, com o seu nome, a sua história e a sua família em mente.
Agende sua consulta: (11) 2769-3929 | (11) 99590-1506 | WhatsApp | Agendamento online — R. Borges Lagoa 1070, Cj 52, Vila Mariana, São Paulo/SP. Atendimento presencial e por telemedicina.
Avaliações de pacientes no Doctoralia: Dr. Bruno Benigno — Doctoralia




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