top of page

Telecirurgia: um robô retirou uma próstata a 3 mil km de distância — o que isso muda no câncer de próstata

Foto do escritor: Dr. Bruno Benigno
Dr. Bruno Benigno
29 de ago.
6 min de leitura
Dr. Bruno Benigno em entrevista à CNN Brasil sobre telecirurgia e prostatectomia robótica

Um cirurgião em Santiago, no Chile, comandou a retirada total da próstata de um paciente em Goiânia. Foi a primeira prostatectomia por telecirurgia realizada em Goiás. Ouvido pela CNN Brasil sobre a tecnologia por trás do procedimento, o Dr. Bruno Benigno explica o que é real, o que é promessa e o que ainda precisa ser respondido.

O que aconteceu

No dia 25 de agosto de 2026, uma prostatectomia radical foi realizada em Goiânia com o cirurgião operando de Santiago, no Chile — cerca de 3 mil quilômetros de distância entre a mão que comanda e o corpo operado. O procedimento usou o sistema cirúrgico robótico Toumai, de fabricação chinesa, e marcou três estreias ao mesmo tempo: a primeira telecirurgia conectando Goiás ao Chile, a primeira prostatectomia por telecirurgia no estado e a primeira telecirurgia realizada pelo Hospital do Rim.

A prostatectomia radical é a retirada completa da próstata e continua sendo o principal tratamento cirúrgico do câncer de próstata localizado — o segundo tumor mais comum entre os homens brasileiros, segundo o Instituto Nacional de Câncer.

Fui o urologista procurado pela CNN Brasil — na reportagem de Thomaz Coelho e Gabriela Maraccini — para analisar a plataforma utilizada e o significado clínico do procedimento.

A plataforma: por que o Toumai chama atenção

“Os chineses fizeram um robô que é uma cópia do robô americano Da Vinci, mas com melhorias, como maior definição de imagem e ser o primeiro console já programado para telecirurgias.” — Dr. Bruno Benigno, em entrevista à CNN Brasil

O ponto não é a novidade do conceito, e sim a mudança de projeto. O Da Vinci foi desenhado para operar com o cirurgião no mesmo prédio do paciente; a telecirurgia veio depois, como adaptação. O Toumai nasceu com o console pensado para operar à distância. É uma diferença de arquitetura, não de acessório.

Do ponto de vista técnico, a plataforma reúne visão tridimensional em alta definição, instrumentais articulados com sete graus de liberdade, torre única com os braços cirúrgicos e software voltado a aumentar a sensibilidade tátil. Criada em 2014, realizou sua primeira cirurgia robótica em Xangai em 2019 e se tornou a principal concorrente do sistema americano que domina o mercado.

Há ainda um segundo eixo, que interessa diretamente ao paciente brasileiro:

“O robô tem proposta de diminuição de custos. Os chineses tiraram alguns gadgets, que diminui o custo sem comprometer usabilidade e segurança.” — Dr. Bruno Benigno, em entrevista à CNN Brasil

Custo, em cirurgia robótica, não é detalhe administrativo. É o principal fator que define quantos hospitais brasileiros conseguem ter um programa robótico e, portanto, quantos pacientes conseguem chegar a ele.

A engenharia invisível: por que a latência é o coração da telecirurgia

O que sustenta uma cirurgia a 3 mil quilômetros não aparece nas fotos. A operação em Goiânia usou duas conexões independentes de fibra óptica, redundância em rede 5G e uma VPN dedicada, justamente para garantir que a comunicação não fosse interrompida em nenhum momento.

O parâmetro decisivo, porém, é a latência: o atraso entre o comando do cirurgião e o movimento do instrumento dentro do paciente. O procedimento manteve latência inferior a 200 milissegundos, limite internacionalmente adotado como referência para que a resposta seja percebida como praticamente instantânea.

A literatura converge com esse número. Uma revisão publicada no Journal of Robotic Surgery em 2025 aponta o valor ideal abaixo de 200 ms para preservar precisão, destreza e segurança, e detalha as estratégias de redução de atraso — computação de borda, compensação por algoritmos e evolução das redes [1]. Um estudo multicêntrico chinês com 37 pacientes submetidos a telecirurgias urológicas por rede 5G registrou atraso médio de sinal de 55,3 ms e perda de pacotes inferior a 0,01%, com 100% de sucesso e nenhuma complicação Clavien-Dindo III–IV [2].

Em telecirurgia, o inimigo não é a distância. É o atraso.

O que a ciência já mostra — e onde ela ainda para

Esta é a parte que costuma ficar de fora das manchetes, e é justamente a que define conduta.

O que já está demonstrado. Uma revisão sistemática com meta-análise de braço único publicada em agosto de 2026 reuniu sete estudos e 80 pacientes submetidos a prostatectomia remota. O sucesso técnico foi de 100%, sem nenhuma complicação Clavien-Dindo grau III ou superior. O tempo cirúrgico médio (190 minutos), o sangramento estimado (72 mL) e a internação (5,2 dias) ficaram compatíveis com os parâmetros publicados para a prostatectomia robótica convencional. Todos os parâmetros de rede permaneceram dentro do limite de segurança [3].

Uma revisão sistemática conduzida por urologistas brasileiros e publicada no International Braz J Urol chegou a conclusão semelhante para a urologia como um todo: os procedimentos remotos analisados foram concluídos sem complicações e sem necessidade de conversão para cirurgia aberta [4]. Experiências como a telecirurgia com três consoles em três cidades diferentes [5] e a primeira conexão transpacífica entre Orlando e Xangai em modelo animal [6] mostram até onde a arquitetura de rede já consegue ir.

Onde a evidência ainda para. Os próprios autores da meta-análise são explícitos: são séries de casos pequenas, com seguimento curto, e os achados devem ser lidos como evidência preliminar de viabilidade — não como prova definitiva de segurança. A recomendação que eles fazem é a que eu subscrevo integralmente: prostatectomia remota deve ficar restrita a centros de alto volume, com programa robótico consolidado, infraestrutura de rede robusta e protocolos de emergência bem definidos [3].

Some-se a isso o que ainda não está resolvido fora do campo técnico: responsabilidade civil quando cirurgião, paciente e equipamento estão em jurisdições diferentes; licenciamento profissional transfronteiriço; segurança cibernética; e o desenho do consentimento informado nesse cenário — questões mapeadas em detalhe na análise técnica e ética publicada no Journal of Robotic Surgery [7].

Vale registrar também um dado sóbrio da meta-análise: o tempo cirúrgico variou de forma significativa conforme o volume de casos do serviço, o que confirma uma curva de aprendizado real. Telecirurgia não dispensa experiência — ela a exige em dose maior.

O que isso significa, hoje, para quem tem câncer de próstata

Sejamos precisos, porque é aqui que a expectativa costuma se descolar da realidade.

Não significa que o paciente brasileiro passará a ser operado à distância nos próximos meses. A telecirurgia ainda é um procedimento de exceção, feito em condições excepcionais, em serviços muito específicos.

Significa três coisas concretas:

  1. A distância deixou de ser uma barreira física intransponível. O que a limita agora é infraestrutura, regulação e treinamento — problemas resolvíveis, ao contrário da geografia.

  2. A concorrência entre plataformas tende a reduzir custo. Se um programa robótico fica mais barato de instalar e manter, mais hospitais fora do eixo Rio–São Paulo conseguem oferecer cirurgia minimamente invasiva com qualidade. Esse é, na prática, o maior impacto de acesso — e ele não depende de operar a 3 mil quilômetros.

  3. Nada disso substitui a decisão certa. Antes de escolher a tecnologia, a pergunta continua sendo se aquele paciente deve mesmo ser operado. Para muitos casos de baixo risco, a melhor conduta segue sendo vigilância ativa; para outros, radioterapia. Robô nenhum resolve uma indicação equivocada.

Tecnologia em cirurgia só vale quando encurta a distância entre o paciente e a melhor decisão.

Em resumo

  • Uma prostatectomia radical foi realizada em Goiânia com o cirurgião operando de Santiago, no Chile, a cerca de 3 mil km, com o robô chinês Toumai.

  • O Toumai é a primeira plataforma com console projetado desde a origem para telecirurgia, com imagem de alta definição e proposta de custo menor.

  • A viabilidade depende de rede redundante e de latência abaixo de 200 ms.

  • A evidência disponível — 80 pacientes em sete estudos — mostra 100% de sucesso técnico e nenhuma complicação grave, mas é preliminar.

  • O impacto mais relevante para o Brasil, no curto prazo, é a redução de custo dos programas robóticos, não a cirurgia remota em si.

Referências

1. Motiwala ZY, Desai A, Bisht R, Lathkar S, Misra S, Carbin DD. Telesurgery: current status and strategies for latency reduction. J Robot Surg. 2025;19(1):153. PubMed · DOI

2. Yu S, Tao J, Guo B, Chen Z, Chen B, Wang S, et al. Application of 5G robotic telesurgery in urology: a multicenter study in the real world. Surg Endosc. 2025;39(9):5613-22. PubMed · DOI

3. Cao S, Xie S, Qin J, Guan RX, Huang HT, Li HY, et al. Tele-robot-assisted prostatectomy: the first systematic review and single-arm meta-analysis. J Robot Surg. 2026;20(1). PubMed · DOI

4. Ferreira SV, Sugai MH, Nascimento GC, Souza AC, Cabrini GC, Rodrigues FM, et al. Feasibility and initial outcomes of telesurgery in urology: a systematic review of the literature. Int Braz J Urol. 2025;51(3). PubMed · DOI

5. Rogers T, Moschovas MC, Saikali S, Reddy S, Gamal A, Li X, et al. Triple-console robotic telesurgery: first impressions and future impact. J Robot Surg. 2024;18(1):381. PubMed · DOI

6. Patel V, Dohler M, Marescaux J, Saikali S, Gamal A, Reddy S, et al. Expanding surgical frontiers across the Pacific Ocean: insights from the first telesurgery procedures connecting Orlando with Shanghai in animal models. Eur Urol Open Sci. 2024;70:70-8. PubMed · DOI

7. Patel V, Saikali S, Moschovas MC, Patel E, Satava R, Dasgupta P, et al. Technical and ethical considerations in telesurgery. J Robot Surg. 2024;18(1):40. PubMed · DOI

Referências localizadas na base PubMed.

Fonte jornalística: Coelho T, Maraccini G. Robô chinês realiza a 3 mil km de distância cirurgia de remoção total da próstata em Goiás. CNN Brasil, 28 ago. 2026. Leia a matéria completa na CNN Brasil. Agradecimento aos jornalistas Thomaz Coelho e Gabriela Maraccini pela apuração.

Dr. Bruno Benigno é urologista e uro-oncologista, especialista em cirurgia robótica e minimamente invasiva. Atua no Hospital Alemão Oswaldo Cruz e é diretor da Clínica Uro Onco, em São Paulo. CRM SP 126265 · RQE 60022.

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica. O tratamento do câncer de próstata deve ser individualizado.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page